O post de hoje é uma  contribuição enviada pelas nossas parceiras do Roteiro Baby Especial, Isaura Sarto e Mariana Caminha. O texto foi escrito por Juliana Palma de Godoi Fialho, terapeuta do Vittorio, filho da Isaura (fotos de Carol Caminha).

Cada criança tem seu tempo

Cada criança tem seu tempo

Enjôos, cansaço, muito, mas muito sono… Ah e também muita, mas muita fome… Surge aquela dúvida e compramos o tal teste de farmácia… Quando aparecem aqueles benditos dois tracinhos, nossa vida vira de pernas pro ar e, de repente, entramos em um mundo completamente novo, cheio de metas a serem atingidas, de estágios de desenvolvimento a serem alcançados… E quanto medo de não ver, no próximo ultrassom, que tais e tais partes de seu bebê já estão formadas? Tudo tem que seguir exatamente como a gente leu nas milhões de páginas sobre gravidez nas quais passamos horas e horas navegando… E assim começa nossa imersão no mundo do desenvolvimento infantil.

Quando o bebê nasce, ele tem que tirar sua primeira nota 10 e, aí, a cada mês tem que conseguir fazer algo novo: olhar em direção a vozes de pessoas, sorrir, segurar objetos, ficar de bruços, segurar a cabeça, sentar, apontar, levantar, andar, falar… Ufa… Não é fácil ser bebê! É prazo em cima de prazo e “ai” dos que não cumprem esses prazos… Começa uma correria em pediatras e neurologistas…

Esses prazos e marcos do desenvolvimento são embasados em avaliações que a medicina faz para identificar topografias comportamentais agrupadas em categorias e, então, poder identificar quando algo sai da curva. Essas categorias são definidas com base nos desenvolvimentos esperados para cada idade tendo como ponto de partida o desenvolvimento típico ou o que comumente se chama de “normal”. A partir dessas categorias e das avaliações médicas se chega, em alguns casos, a um diagnóstico de atraso de desenvolvimento que pode ter várias causas.

A avaliação médica é fundamental em casos de atrasos do desenvolvimento, afinal, quanto mais cedo se identificar a causa desse atraso mais cedo começarão as estimulações especializadas que podem vir a reverter alguns casos ou, pelo menos, garantir um desenvolvimento satisfatório e uma melhor qualidade de vida. Por isso, é sim importante ficarmos atentos aos marcos do desenvolvimento e, frente ao primeiro sinal de atraso, procurar ajuda de um especialista.

Mas, independente do diagnóstico, na visão da Análise do Comportamento (uma abordagem da Psicologia) o ditado “Cada criança tem seu tempo” tem fundamento sim… E é fundamento científico!

Nós, Analistas do Comportamento, nem falaríamos em diagnóstico, mas sim em Avaliação Comportamental. Esta, por sua vez, busca identificar respostas do indivíduo considerando o contexto (ambiente ou situação) onde ocorrem e, ainda, considerando as consequências que essas respostas produzem.

Assim, a análise do comportamento visa uma explicação individualizada, a partir da análise da relação entre eventos ambientais e eventos orgânicos.

Todos os comportamentos são determinados pela ação conjunta de três fatores: 1) Filogênese: a herança genética transmitida de pais para filhos, as características físicas selecionadas na evolução das espécies; 2) Ontogênese: a história adquirida nas vivências pessoais do organismo, a chamada aprendizagem, que consiste na seleção de comportamentos por suas consequências; 3) Cultura: a sobrevivência de padrões de comportamento passados de um indivíduo para outros de seu grupo.

A filogênese gera as características que são comuns a toda a espécie humana, por exemplo, andar na posição ereta, respiração pulmonar, piscar frente a luz forte ou ameaça de atrito, etc., e, também, algumas características passadas de pais para filhos geneticamente, como a cor dos olhos, do cabelo e da pele, as feições e alguns trejeitos que nos levam a comentar a cada novo bebê que conhecemos: “é a cara do pai!”.

Já a ontogênese, isto é, a história de vida, faz cada um ser um indivíduo único. Quem já conheceu gêmeos monozigóticos sabe que o fato de terem a mesma genética não faz com que sejam pessoas idênticas, pelo contrário, é comum vermos casos de gêmeos monozigóticos com características comportamentais completamente opostas. É aí que enxergamos claramente a ação da ontogênese, afinal, mesmo sendo geneticamente idênticos e tendo crescido juntos, estes gêmeos não terão histórias de vida e aprendizados idênticos. Quando os pais forem lhes ensinar a andar de bicicleta, por exemplo, eventualmente pode haver uma pedra ou um buraco no caminho de um dos gêmeos, que cairá e terá este comportamento frustrado. Provavelmente, este gêmeo não vai se tornar um grande ciclista. Enquanto isso, o outro gêmeo que ocasionalmente foi por um caminho sem pedras e buracos, pôde pedalar com perfeição e teve seu comportamento instantaneamente reforçado. Este segundo irmão terá mais chances de voltar a pedalar no dia seguinte e nos próximos.

Assim, para a análise do comportamento, cada indivíduo é único, e buscamos entender os atrasos no desenvolvimento a partir da história de aprendizagem da criança. Sendo assim, cada criança tem seu tempo porque cada criança tem sua história de aprendizagem que, juntamente com suas características genéticas e culturais determinam seus comportamentos. Quando a criança não apresenta nenhuma alteração orgânica (neurológica ou genética), provavelmente ela vai atingir os marcos do desenvolvimento mais ou menos na idade esperada e sem nenhuma estimulação especial, somente com a estimulação natural do ambiente. Já as crianças que possuem alterações orgânicas obviamente terão um tempo e um ritmo diferentes para atingir cada marco do desenvolvimento e, ainda, precisarão de condições especiais para que consigam atingir.

Mas isso não significa que não são capazes de aprender, só significa que a estimulação natural e os métodos de ensino tradicionais não são adequados ao modo como funciona o organismo delas e, então, cabe a nós (pais, educadores, psicólogos, médicos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfim, todos que lidam com estas crianças) descobrir como o organismo dela aprende, como ele evolui, que estímulos precisa. Assim, no tempo dela e com as condições de ensino adequadas, essa criança também vai atingir os tão sonhados marcos do desenvolvimento infantil.

Este é o Vittorio, 6 anos. Ele está no espectro autista, o que não o impede de ter uma vida plena, feliz.  Segundo a mãe, Isaura, do Roteiro Babyy Especial, “ele tem acompanhamento especial desde bebê, o que foi essencial para o seu desenvolvimento”.

Autoria de Mari Oliveira
Sou mãe, esposa, filha e irmã off-line. Tradutora, fã dos Beatles e mãe de primeira viagem on-line. No dia 13 de maio de 2011, ouvi Maria Betânia cantar e o obstetra repetir: “Você verá que a emoção começa agora”. Eles estavam certos!