Guia Disney para crianças com deficiência

Guia Disney para crianças com deficiência

*Guest Post de Mariana Caminha, do Roteiro Baby Especial

A Disney é um dos lugares mais maravilhosos para visitar com os filhos. Nela há variedade de brinquedos, shows, restaurantes. Tem espaço para tudo… E todos também.

Você provavelmente não sabe, mas a Disney é um dos lugares mais inclusivos do mundo. Nela, há uma série de privilégios que facilitam a visita aos parques e garantem a diversão para quem tem deficiência física ou intelectual. Isso quer dizer que crianças e adultos com Síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral e outras tantas deficiências são muito bem vindos por lá. Imagine um lugar que ofereça guia em braile, audiodescrição e que seja amigo de todo cão-guia? É a Disney!

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Minha família em nossa viagem mais recente à Disney, em dezembro de 2015.

Aqui em casa somos todos muito fãs da filosofia que faz da Disney “the happiest place on Earth” (o lugar mais feliz do planeta): uma mistura de perfeccionismo, magia e prazer. Por isso visitamos os parques sempre que podemos. Depois do diagnóstico de autismo do nosso filho mais velho, o Fabrício (5 anos, diagnosticado aos 2), já fomos à Disney duas vezes. E como foi bem diferente das outras vezes, justamente por causa desses privilégios, achei que valia à pena compartilhar o que sabemos e aprendemos. Assim, outras tantas crianças com deficiência poderão desfrutar a magia da Disney com tudo o que têm direito.

E aí vem a pergunta: dá para aproveitar os parques da Disney com uma criança deficiente?

  • Preparação

É muito importante planejar a viagem com bastante antecedência. Considere a época do ano, a deficiência do seu filho (ele tem dificuldades motoras? Intelectuais?) e analise que tipo de acessórios você deve precisar durante a viagem. No nosso caso (autismo), o Fabrício precisa apenas de um bom carrinho de bebê com conforto suficiente para tirar uma soneca no parque (além de reforçadores de comportamento, mas falo disso depois). Como temos ainda outro filho (Santiago, de 1 ano e meio), levamos um carrinho de gêmeos com muito espaço para carregar lanches e brinquedinhos para distração. Trambolho, mas fazer o quê, né? Lembre-se de que vocês provavelmente passarão o dia inteiro nos parques e que conforto é a palavra-chave aqui. Outra coisa a ser considerada: os parques oferecem uma estimulação sensorial intensa: muita gente, muito barulho, luzes… e filas (daqui a pouco falo sobre elas). Crianças autistas e com outras deficiências podem ser mais sensíveis a esse tipo de estimulação. Uma viagem à Disney é prazerosa e trabalhosa para qualquer pessoa, não só para quem tem filho com deficiência. A gente só precisa ter um pouquinho mais de atenção aos detalhes.

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Meu carrinho de gêmeos, para acomodar meus dois filhos. Este é da marca Chicco.

  • Passagens

Compramos a passagem com desconto para acompanhante de deficiente. Escolhemos a TAM, que oferece voo direto de Brasília a Orlando. Como vocês sabem, desde janeiro de 2014 as companhias aéreas têm de seguir a Resolução n° 280  da ANAC que, entre outras coisas, trata dos procedimentos relativos à acessibilidade de passageiros com necessidade de assistência especial (PNAE) ao transporte aéreo. Um dos pré-requisitos para desfrutar do benefício do desconto é o envio do formulário de informações médicas (MEDIF). No caso da TAM, esse documento (que pode ser encontrado no site da empresa) deve ser enviado para servicostam@tam.com.br com antecedência mínima de 72 horas para o voo. Como tenho horror a burocracia, enviei esse formulário com expectativa zero (pensei, “eles vão dizer não, ou não vão me responder, eu vou ter de brigar, ah, é melhor pagar logo essa passagem sem desconto”). E não é que tudo correu perfeitamente bem? Recebi uma resposta em menos de 24h, com todas as minhas dúvidas respondidas e todas as orientações para a compra. Fiquei tão positivamente chocada que escrevi um e-mail de volta elogiando o atendimento de primeiro mundo. Um daqueles momentos que a gente guarda no coração. No fim das contas, compramos duas passagens juntas: a do Fabrício (que é deficiente, sem desconto) e a minha, de acompanhante com 80% de desconto. Tão lindo quando a lei sai do papel e funciona. =)

  • O voo

Essa é a parte mais dura da viagem, e me dá arrepios só de lembrar desta última experiência. Vale lembrar que o Fabrício viaja muito, e que nunca deu trabalho em voos, nem mesmo os mais longos. Havia duas opções em nossas mãos: um voo direto a Orlando, diurno; um voo noturno, com escala em São Paulo. Um surto de otimismo deve ter tomado conta da gente quando escolhemos o voo diurno. Né? Porque só isso para explicar, rs! Em resumo, foram as oito horas mais longas das nossas vidas. Choro, grito, irritação. Não tinha iPad, iPhone, DVD que resolvesse. Na volta, voo noturno, dormiram como anjos. Lição dada, lição aprendida. Voo diurno, nunca mais!

  • Hotel

Sempre defendo a estada no próprio complexo hoteleiro da Disney, porque são muitas as facilidades. Alguns hoteis, como o Art of Animation (nosso preferido) são praticamente um parque de diversão. Isso quer dizer que mesmo naquele dia em que vocês decidirem ficar no hotel a folia estará garantida. Tem também o plano de refeições da Disney (privilégio para quem se hospeda em seus hoteis) que deixa tudo mais fácil: por um preço fixo você tem direito a um plano específico de refeições e só vai ter o “trabalho” de fazer reserva nos restaurantes. Para quem quer aproveitar as refeições com os personagens, esse é o plano perfeito. Sai muito mais barato, mesmo! O único problema desse “pacote” é que a hospedagem no hotel da Disney é bem mais cara, mais que o dobro de um bom hotel fora do complexo. Desta última vez, com a alta do dólar, acabamos escolhendo o Radisson da Vineland Avenue. Adoramos o hotel e recomendamos para quem quiser gastar menos com acomodação. Mas por mais que tenha sido bom, nada como ficar na própria Disney!

  • O Transporte

Para quem se hospeda nos hoteis Disney, ir ao parque é bem mais fácil: há transporte gratuito para os guests com saída de 15 em 15 minutos. Dependendo do hotel, esse transporte pode ser feito por ônibus, ferry ou monorail, o moderno trem do complexo. Para quem vai de monorail ou ferry a viagem é bem tranquila, pois há espaço suficiente para cadeira de rodas e carrinhos de bebê. Mas note que quando se trata dos ônibus é preciso fechar carrinhos e cadeira de rodas. Isso é bem chato, porque sempre estamos cheios de sacolas e mochilas.

Há estacionamento público para quem quiser chegar aos parques de carro. Eles são grandes e bem caros (20 dólares por dia). Existe uma área reservada para pessoas com deficiência, e você pode usá-la mesmo que não tenha a tag azul de cadeirante (sugiro pedi-la quando forem alugar o carro). No nosso caso, falamos que havia uma criança autista conosco e nos liberaram o acesso. Se por algum motivo não conseguir estacionar na vaga de deficiente, prepare-se para andar muito até a porta do parque. A alternativa é pegar carona em um trenzinho, mas vai ter de fechar o carrinho/cadeira de rodas para andar nele. =(

– Os Parques

  • Ingressos

Não há desconto para crianças com deficiência. Sugiro que comprem os ingressos com a Tam Viagens, onde conseguimos um MEGA desconto (mais de 50%). Não deixe para comprar os ingressos na porta do parque, pois há filas e isso pode deixar a criança bem chateada. Além disso, aqui no Brasil pode-se parcelar o valor total da compra, enquanto nos EUA é tudo à vista. #ouch

  • O que levar aos parques

Além de lanche (pode entrar com comida sem preocupação), sugiro que incluam na mochila: crachá de identificação para a criança, fone de ouvido para aqueles que têm sensibilidade ao barulho, atividade para distração (ipad/iphone/dvd), bolinha antistress para acalmar a criança e reforçadores de bom comportamento. No caso do Fabrício, o iPad era um excelente reforçador, além de M&Ms e umas figuras do Jake, personagem que ele adora.

  • Carrinho/Cadeira de Rodas

É melhor levar do Brasil ou comprar um baratinho por lá, no Walmart, por exemplo. Alugar um carrinho dentro do parque custa 15 dólares por dia, o preço de um carrinho novo no supermercado. Mas o pior não é isso: o carrinho que eles alugam na Disney é muito desconfortável, de plástico. Alugar cadeira de rodas por lá também é possível. Recomendamos uma pequisa de preço e análise do custo/benefício antes de se decidir pelo que é oferecido dentro do parque.

  • Comida/Alergias/ Intolerância Alimentar

Os restaurantes da Disney são bem democráticos e sempre oferecem alternativas para crianças com intolerância a algum tipo de alimento. Cada parque conta com um número grande de restaurantes para todo tipo de bolso (mas até os mais baratos oferecem opções interessantes). É bom planejar com antecedência, especialmente se a sua criança é seletiva quando o assunto é alimentação.

  • My Disney Experience

Este é um app essencial para a sua viagem à Disney. Uma vez comprados os ingressos é possível começar a planejar a sua viagem. Neste app há todas as informações que você precisa saber sobre os parques, atrações, restaurantes, shows… E é nele que você vai fazer as suas reservas de refeição e também de FastPass, um mecanismo da Disney para andar mais rápido na fila. É incrível! Bom lembrar que os parques de Orlando contam com wi-fi de primeira, viu?

  • Guia para Guests with Disabilities

Você chegou ao parque. Qual o primeiro passo? Bom, a primeira coisa a fazer é pegar, logo na entrada, o Guide for Guests with Disabilities (veja este, do Magic Kingdom). É um panfleto com informações dos parques feito especialmente para pessoas com deficiência. Nele você vai encontrar informações sobre acessibilidade, alergias e dicas de acordo com cada deficiência. Tudo muito bem feito e explicado. Logo que passar da roleta de entrada você poderá ver um stand com todos os guias, em diferentes línguas. É só pegar um!

  • Disability Access Service

Esta talvez seja a dica mais preciosa de todas. Toda pessoa com deficiência tem direito ao Disability Access Service, um passe que vai dar ao seu filho alguns privilégios. Entre eles está uma espécie de “FastPass” válido para toda e qualquer atração, quantas vezes for necessário. Isso quer dizer, basicamente, evitar filas. Funciona assim: você vai à atração e recebe um horário para retornar, quando não precisará pegar fila. Assim, não precisa ficar parado com a criança, podendo usar esse tempo para passear, lanchar… Não é o máximo? Antigamente, o DAS dava esse privilégio para o deficiente e mais 6 pessoas. Agora, isso mudou: se a criança deficiente estiver viajando com 30 pessoas, as 30 pessoas também poderão usufruir do privilégio (mas a criança tem de estar junto no mesmo brinquedo). Para se cadastrar no DAS basta ir ao guest relations do parque, logo na entrada.

  • Stroller as Wheelchair Tag

Quando for se cadastrar com o seu filho no DAS, não deixe de pedir a quem estiver te atendendo uma tag vermelha de “Stroller as Wheelchair” (Carrinho como Cadeira de Rodas), um benefício extra que faz toda a diferença. É que os brinquedos da Disney às vezes demandam uma caminhadinha até o início da atração. Caminhada essa que deve ser feita sem carrinho, mesmo se você estiver com criança pequena. Com essa tag vermelha você poderá fazer esse trajeto com o carrinho da criança, sem precisar remove-la e cansá-la. No meu caso, esse benefício vale ouro. Crianças autistas tendem a ficar impacientes diante de filas ou longas caminhadas. Como a minha vida melhorou depois que descobri isso!

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  • Rider Switch

Vamos dizer que vocês são 3 na viagem, e que adoram montanha-russa, mas a criança ainda não pode ir à atração. Vocês podem fazer uso do “Rider Switch”, um mecanismo que permite ao casal não pegar fila duas vezes. Funciona assim: vai um, o outro fica com a criança. Depois trocam de lugar, e o segundo a ir não precisa pegar fila. Para fazer uso do Rider Switch basta se dirigir ao Cast Member da atração, aquele ajudante que fica cuidando da fila.

  • Quiet Area

As quiet areas são áreas reservadas para pessoas que necessitam de uma pausa, um break diante de tantos estímulos que os parques oferecem. Elas pode ser identificadas nos guias dos parques, que você pode pegar logo ao entrar lá.

  • Family Restrooms

Os parques contam com banheiros espaçosos e preparados para cadeirantes. Há vários deles espalhados nos parques. Também estão sinalizados no guia.

  • Cast Members

São os funcionários da Disney. Você pode recorrer a eles em caso de emergência ou dúvida. Não hesite em se aproximar em caso de necessidade, e nem tenha receio quanto à língua. Os Cast Members são muito amáveis e estão prontos para ajudar, sempre.

  • Os Personagens

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Eles são o verdadeiro motivo de visitarmos os parques, e a Disney sabe disso. Por essa razão, os personagens são muito queridos, pacientes e podem até ser treinados em língua de sinais. Já assisti a vários vídeos lindos de personagens interagindo com crianças deficientes, como este: https://www.facebook.com/EmilyChristineLowe/videos/1025476210807363/?fref=nf

  • Os shows

São a atração preferida do Fabrício. Eles acontecem em vários parques, mas os do Magic Kingdom são especiais. Hoje há uma área reservada para pessoas com deficiência, com vista privilegiada. Isso vale também para os famosos desfiles. Imperdível! Pergunte ao Cast Member mais próximo sobre a localização exatas dessas áreas.

Ficou bem longo, né? Mas espero que essas dicas tenham sido úteis e que vocês tenham uma viagem mágica ao melhor lugar do mundo! <3

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Autoria de Mariana Caminha