Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência: por que devemos segurar as mãos

Quando eu pensava em ser mãe, imaginava algo como: “nossa, vou ser uma mãe super bacana, brincar o dia todo com meu bebê, encher minha filha de laços e bonecas, rolar na areia, ensinar pique-esconde, cambalhota. Vou ser a melhor mãe do mundo. Tirar de letra mesmo“. Daí, quando fiquei grávida, logo soube que os planos dos laços e frufrus ficariam para depois, pois lá vinha um menino.

Essa foi a primeira vez que a Dona Maternidade fez cócegas em mim, como quem diz: “querida, super entendo a sua vontade de brincar de boneca, mas olha, nada pessoal, quem manda nisso aqui sou eu.”

Daí que fui aprendendo a ser mãe de menino, e adorando aquela molecagem. Ficava louca para ele crescer um pouquinho, me chamar de mãe e me puxar para as brincadeiras, dizer que me ama, essas coisas que a gente sonha, né? Mas esse falar não vinha, alguns sorrisos, no máximo, mas quase zero contato visual. Cadê aquela conexão? Além disso, o Fabrício, meu filho, parecia não gostar muito de brincar como os outros garotinhos: em vez de empurrar carrinhos, preferia ficar horas em frente à televisão, ou abrindo armários e gavetas aleatoriamente.

Foi quando Dona Maternidade deu as caras de novo, e disse: “mais uma surpresinha: seu filho é autista. Sabe o que é isso? Provavelmente não… Humm, ok, hoje em dia é bem mais fácil. Joga no Google. Boa sorte.

E assim a minha vida mudou para sempre. Eu não só era mãe. Era mãe de uma criança portadora de deficiência.

Hoje, 21 de setembro, é o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, e este post, na verdade, não será sobre autismo ou qualquer outra síndrome. O que eu gostaria de dizer é que o dia de hoje é importante não somente para mim, mas também para cada uma de vocês, mães de crianças neurotípicas. Inclusive, é assim que devemos nos referir a uma criança que não possui deficiência ou atraso intelectual.

E por que o dia de hoje também diz respeito a vocês? Ora, que gancho mais perfeito para falar aos seus filhos um pouquinho sobre o universo do Fabrício e de tantos outros meninos, meninas, jovens, adultos e idosos, todos portadores de algum tipo de deficiência? Coisas simples, como por exemplo:

  1. O mundo é muito grande, e nele cabem pessoas de olhinhos puxados, cabelos enrolados, grandes e pequenas, gente que não possui os dois braços, ou que só tem uma perna. Há quem aprenda super rápido e seja o melhor da turma. Já outros precisam de mais ajuda. Tem gente que anda de cadeira de rodas, outros a pé. O mundo é tão grande como são grandes as diferenças entre aqueles que vivem nele. E o que é importante a gente saber? Ser diferente é legal, e diferença não quer dizer ser menos que ninguém. A gente sempre tem como aprender com o que os outros têm de diferente da gente.
  2. Se você está no shopping e percebe que seu filho tem curiosidade, por exemplo, sobre uma criança com Síndrome de Down que está sentada ao lado, é muito melhor incentivá-lo a perguntar do que deixá-lo com aquele olhar fixo, sabe? A maioria de nós, pais de crianças especiais, não nos incomodamos em esclarecer dúvidas, trocar experiências. Pelo contrário. O que incomoda é o olhar condescendente, de pena, ou até horror (a gente não sabe nem o que é pior).
  3. Para as crianças, tudo é mais simples. Por isso, explicações longas e detalhadas sobre deficiência acabam não fazendo muito sentido. Uma amiga relatou que a filha fez mil perguntas quando viu um garotinho em uma cadeira de rodas, durante um passeio ao shopping. A mãe, muito certa, apenas disse: “ah, que menino mais fofo. Ele deve ter algum problema nas pernas e não pode andar.” Simples, mensagem dada. A deficiência deve ser encarada com naturalidade e não como fenômeno.
  4. Tenha cuidado com o que fala na frente dos seus filhos. Nosso discurso está cheio de preconceito, mesmo sem a gente perceber isso. Às vezes nos pegamos falando coisas como “João é burro demais, parece um retardado!” ou “Como aquele político não está vendo tudo isso? Parece autista!” “Pobrezinha daquela menina, não é normal“. Acho que nem preciso falar mais, né?
  5. Ensine seu filho a ter empatia e compaixão. Há diversos dias comemorativos para pessoas com deficiência: dia da epilepsia, do autismo, da Síndrome de Down. Participe de caminhadas, mostre desde cedo que ajudar os outros faz um bem enorme a eles e a nós mesmos.
  6. Ainda sobre empatia: a deficiência não define nossas crianças, é parte do que elas são. Isso quer dizer que, mesmo sobre uma cadeira de rodas, aquele amiguinho merece ser chamado para brincadeiras de ação. Há crianças com autismo, por exemplo, que aos cinco, seis anos de idade, ainda não falam. Mesmo assim, merecem um bom dia daqueles bem gostosos todas as manhãs. Isso é inclusão, é amor ao próximo, é solidariedade.
  7. Dê o exemplo: não estacione em vagas reservadas para portadores de deficiência. Nem por um minutinho. Explique o motivo daquele símbolo, e lembre-se: deficiente não é sinônimo de cadeirante. Nem toda deficiência é aparente.

Essas são algumas coisas que andei aprendendo nos últimos dois anos, desde o diagnóstico do Fabrício. Para mim, o dia de hoje serve para lembrar que ainda há muito a ser conquistado no que se refere à qualidade de vida das pessoas com deficiência. A luta é grande, e vocês podem não ser os protagonistas dela, mas certamente podem segurar as nossas mãos e nos ajudar a fazer um mundo melhor para nossas crianças.

Mariana Caminha, mãe do Fabrício e do Santiago, é uma das editoras do Roteiro Baby Especial, uma plataforma multidigital dedicada a famílias de portadores de deficiência.

 

Autoria de Mariana Caminha