SURDOS

SURDOSComo 10 milhões de surdos ajudaram meu filho a falar

Nunca tive contato com uma pessoa surda. Na escola, não me recordo de um coleguinha sequer, um professor ou funcionário. Foi assim desde a sala de aula até hoje. Nenhum dos 10 milhões de brasileiros com deficiência auditiva passou pela minha vida.

Ainda assim, devo muito aos surdos. Por causa deles, meu filho conseguiu desenvolver a fala. Por isso fui uma das pessoas que mais celebraram o Dia Nacional dos Surdos, comemorado no último sábado, dia 26 de setembro.

Fabrício tinha três anos e não dizia uma palavra. Alguns barulhos, sons que não faziam sentido para nós. Entendimento zero, frustração imensa. Meu filho tem autismo e até aquele momento se encaixava na categoria não-verbal desse espectro tão diversificado e desconhecido do transtorno.

A estimulação da fala em crianças com autismo pode ser feita de várias formas. Conhecíamos algumas delas, como por exemplo a que usa um sistema de figuras para comunicação; mas ficamos curiosos de verdade quando a terapeuta do nosso filho sugeriu que usássemos LIBRAS, a Língua Brasileira de Sinais, para “trazermos a fala” do Fabrício.

Foi um verdadeiro divisor de águas no desenvolvimento da nossa criança. Fomos aprendendo alguns gestos, ensinando a ele como executá-los (e à família também, claro). Um processo igualmente incrível e desafiador que nos deixou mais próximos desses 10 milhões de brasileiros antes invisíveis aos nossos olhos.

Se hoje LIBRAS existe é por causa dos surdos; se hoje meu filho consegue se expressar com palavras foi graças ao processo de aprendizado de gestos, sílabas, palavras, frases.

Hoje sei que o uso de gestos ultrapassa os limites da deficiência auditiva e do autismo. Deve haver outras inúmeras funções para LIBRAS. Já se sabe que até mesmo bebês são capazes de aprender alguns gestos para demonstrar suas vontades, transmitir pensamentos, frustrações. Você sabia disso? Estou falando de crianças de 8, 9 meses de idade. Prova de que a comunicação é, sim, uma das ferramentas mais poderosas que a humanidade possui.

Em outras palavras, se hoje escuto “Mamãe” é graças àqueles que não podem ouvir o meu mais profundo “Obrigada”!

Feliz Dia Nacional dos Surdos!

Mariana Caminha, mãe do Fabrício e do Santiago, é uma das editoras do Roteiro Baby Especial, uma plataforma multidigital dedicada a famílias de portadores de deficiência.

Autoria de Mariana Caminha