roteiro-baby-adoção

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“Em todos os tempos e em todas as civilizações existiram, e continuam existindo, pessoas que têm um grande desejo de ter filhos e pessoas que não querem, ou não podem, criar seus filhos. Dentre aquelas que têm desejo de ter filhos, uma parte significativa não pode tê-los, e, dentre todas as crianças, existem muitas que ficam sem pais. Portanto, a organização social das mais diferentes culturas encontrou maneiras de estabelecer diferentes tipos de relações familiares que não as biológicas. (…) Existe, porém, um fim mais subjetivo para aqueles que são pais: fazer sua inscrição na história, criar suas raízes e supor uma fuga da finitude. O objetivo de um filho será sempre, de uma certa maneira, a própria sobrevivência. A adoção é uma realidade biológica e, ao mesmo tempo, uma realidade social, que está marcada pelo sobrenome. O sobrenome é a indicação e o reconhecimento social de que pertencemos a uma família. O nome é dado, mas o sobrenome é transmitido. Da mesma forma, a adoção está inserida numa realidade psicológica e afetiva: a filiação significa pertencer a uma história, a um passado, ligar-se por raízes a uma criança. Para os pais, a adoção significa ter um filho.” [Fonte: Mitos e Verdades no Processo de Adoção, Lidia Weber]

No dia 25 de maio é celebrado no Brasil o Dia Nacional da Adoção, criado oficialmente em 1996 e comemorado em todo o país pelos militantes da causa para celebrar e refletir sobre a adoção de crianças. No Cadastro Nacional de Adoção (CNA), segundo dados de outubro de 2013, das 5,4 mil crianças e jovens para adoção, 4,3 mil (80%) estão na faixa etária acima de 9 anos. No banco de crianças disponíveis para adoção do DF, crianças com menos de 12 anos são minoria. Ainda assim, só no ano passado, a Justiça do DF autorizou 167 adoções. Em 2010, foram 195. A realidade não é diferente nacionalmente.

Diz-se que o processo de adoção no Brasil leva, em média, um ano. Mas na realidade pode durar bem mais se o perfil apresentado pelo adotante para a criança for muito diferente do disponível no cadastro.

Se, independente de motivo, a adoção é um desejo do seu coração, sugerimos que acessem os sites do Conselho Nacional de Justiça e Padrinho Nota 10, com informações de Brasília.

E ainda: se adotar é um desejo, mas você ainda não teve coragem de tomar esta decisão, deixo aqui dois lindos depoimentos, sobre a beleza do amor e da maternidade, independente dos laços de sangue.

O primeiro é da coach Paula Abreu, que, podendo ter filhos biológicos, optou por adotar uma criança, um menino, que nas palavras dela: “é um pequeno mestre de cinco anos, que me faz rir, que ri de mim, que ri comigo, que me deu a permissão – que eu não sabia desnecessária! – pra voltar a ser criança, e que me ensinou a maior lição que aprendi até hoje. Foi só quando vi o tamanho do amor que eu era capaz de sentir por uma criança que eu não tinha gerado, gestado, parido ou amamentado, que era parecida comigo em absolutamente nada, foi só nesse momento que eu descobri o que era o Amor com A maiúsculo.

O outro depoimento posto abaixo. É de uma amiga pessoal, Rejane Porto, que conheci quando éramos ambas solteiras, mas já apaixonadas e maternais. Eu sabia que ela não poderia gerar filhos, e foi com muita emoção que a reencontrei recentemente no Facebook, feliz e mãe do Pedro, o PP, um menino lindo que deu a ela um coração onde depositar o amor de mãe que ela tinha no próprio peito e que retribui a ela o amor de filho que ela sempre procurou.

Aos 19 anos, descobri que não podia ser mãe, um problema de saúde me impossibilitou de gerar uma criança. Fiquei entristecida e após algumas sessões com um psicólogo, cheguei a conclusão que a adoção seria uma saída, pois um projeto de empréstimo de um útero não seria interessante, não tenho irmã e minha mãe também não tem útero. Conheci então meu atual marido, Chico, para quem contei desde o início que não poderia gerar um filho e falei da ideia da adoção. Por acaso a mãe dele sempre teve o sonho de adotar, mas o pai não compartilhava do mesmo desejo. Meu namorado ficou triste pelo que aconteceu comigo, mas feliz ao mesmo tempo com a possibilidade de ser um “pai do coração”, isto caso o namoro chegasse ao casamento. E foi o que aconteceu, após 11 anos juntos, nos casamos.

Em 2007, conversamos sobre a entrada na fila de adoção e decidimos pela entrega dos documentos, mesmo sabendo que em Brasília, em especial, o número de adotantes é muito maior que o de adotados. A maioria das pessoas inscritas, cerca de 90%, querem menina até um ano e branca, perfil este que ouvi de algumas pessoas, brincando, como o da “Mini-Barbie”. Não era o nosso caso, pois para nós não importava o sexo. Nós optamos por uma criança de até 2 anos, o que mudaríamos mais tarde para 3, após conversas com a equipe orientadora da VIJ (Vara da Infância e da Juventude). Até então o sonho de ser mãe parecia distante e eu mesma chegava a duvidar dele, apesar de nutrir esse desejo sempre que ia a uma festa infantil, quando uma amiga estava grávida ou em diversas outras situações onde tinham crianças presentes. A lista de adotantes era extensa e eu comecei na posição quatrocentos e alguma coisa, não me lembro ao certo. Saberia, depois de alguns anos, que a fila andava de forma lenta…

Quando as pessoas ficam sabendo que estamos na fila, é engraçado pois começam a nos contar algumas histórias sobre a chamada “adoção indireta”, isto é, uma mãe recebe a criança e registra em seu nome como mãe natural, ou outras histórias sobre alguém que está grávida e quer entregar a criança a uma pessoa de confiança, mas não quer deixá-la em um abrigo ou passar pelos trâmites legais do processo. As ofertas de entrega para nós foram no mínimo três e na insegurança decidimos ligar para uma psicóloga conhecida da VIJ e ela desaconselhou, pois, segundo ela, os casos de extorsão eram comuns e nós poderíamos ter alguns outros problemas com a legalidade do processo. Decidimos então que esse não era o caminho, pois queríamos ter a certeza de que o nosso filho chegaria e que ninguém poderia tirá-lo dos nossos braços após recebê-lo em nossa família.

Em 2011, a VIJ nos chamou para o chamado “Pré-natal”, reuniões que aconteciam com os adotantes, com depoimentos e orientações sobre o processo da adoção. Muito interessante e que me deixou um pouquinho mais ansiosa, mas até junho daquele ano, nós estávamos na posição noventa e alguma coisa (da fila) e eu ainda não acreditava que seria mãe algum dia. Para a nossa surpresa, em agosto desse mesmo ano, a VIJ nos procurou novamente marcando uma reunião. E para minha surpresa eles me chamaram para conhecer aquele que seria o meu filho. Até aquele momento eu não tinha nenhuma expectativa em relação àquela criança. Era um menino de 11 meses e quando eu olhei a foto não senti nada a não ser curiosidade de conhecê-lo, já que nós tínhamos estado em alguns abrigos anteriormente e eu, mais especificamente, não tinha sentido nenhum “estalo amoroso” por nenhuma criança. Ainda bem, pois não é bem assim que tem que ser. Já tínhamos a informação de que caso isto acontecesse, este caminho era o mais doloroso e às vezes inviável. Descobriríamos então que a obrigatoriedade do respeito à fila oferece ao adotante e ao adotado um processo lento, porém mais seguro a ambos.

Marcamos o encontro para a semana seguinte e até aquele dia em questão, eu, que não tinha nenhuma perspectiva com relação ao Pedro, já tinha mudado totalmente de atitude. Estava ansiosa e já tinha criado mil e um cenários para aquele momento.

Cheguei ao abrigo com a psicóloga da VIJ e com o meu marido. Quando entrei na casa onde o Pedro estava e olhei para ele, descobri que Deus estava ali e me mostrando que aquele era o meu filho (parecia até brincadeira). Comecei a chorar e perguntei à psicóloga se era sempre assim que acontecia, e ela me respondeu que “infelizmente não”. Aí que eu chorei mais ainda e perguntei se eu poderia pegá-lo nos meus braços. Senti a dimensão do sentimento de ser mãe. Me apaixonei. A psicóloga me explicou então que eu teria até o dia seguinte para dar uma resposta sobre a adoção dele.

Decidimos então que aquela oportunidade era única e que o Pedro era o filho tão esperado. Daquele dia em diante minha vida nunca mais foi a mesma. Descobrimos a felicidade de sermos pais de uma criança linda, especial, e muito aguardada. Descobrimos também que temos de ser pessoas muito melhores do que éramos antes, pois temos a missão de sermos exemplos de cidadania, humildade, bondade e tudo de melhor que o ser humano é em sua essência. Para mim, como mãe, a descoberta do sentimento de ser mãe é algo inexplicável, o amor é tão forte que “dói” no peito.

Para nós sermos pais biológicos ou não, definitivamente, não importa. Temos a certeza que ele já estava programado para chegar em nossas vidas e transformá-la. Não tem aquilo que ouvimos muito, “vocês estão tendo uma atitude muito bonita”. Para nós, foi simples assim: Eu queria muito ser mãe e o Pedro precisava de pais que o amassem.

Existe o sincero desejo de adotarmos outro, apesar dos 3 longos anos e meio de espera. Queremos dar um irmão para o Pedro, pois sabemos o quanto é importante termos família. É mais um sonho que estamos construindo.

Autoria de Mari Oliveira
Sou mãe, esposa, filha e irmã off-line. Tradutora, fã dos Beatles e mãe de primeira viagem on-line. No dia 13 de maio de 2011, ouvi Maria Betânia cantar e o obstetra repetir: “Você verá que a emoção começa agora”. Eles estavam certos!