Livros, Reflexões

Contos de fadas que não merecem ser contados

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Muitos pais (oi!) se perguntam se devem ou não apresentar todos os contos de fadas para seus filhos. Preocupados com as eventuais passagens cruéis de alguns contos e a possibilidade delas perturbarem a inocência da criança, os pais, muitas vezes, evitam alguns contos ou contam as histórias em versões não originais.

Professores, psicólogos e outros profissionais defendem a importância dos contos de fadas na vida das crianças e afirmam que “uma boa narrativa comove ativamente a alma, dá asas aos sentimentos, ativa uma sã vontade e estimula a mente”.

Para os pais preocupados com essa questão, os especialistas dizem que as emoções provocadas pelos contos de fadas não fazem mal às crianças, desde que a narrativa se constitua, claramente, de causa e efeito, prevalecendo, no final, o sentido de justiça tão almejado pela criança que quer ver o mal sendo castigado e o bem recompensado. Dizem ser importante fortalecer, na criança, sua confiança no trunfo da bondade, e que os contos de fadas garantem às crianças que as dificuldades podem ser vencidas, as florestas atravessadas, os caminhos de espinhos desbravados e os perigos mudados, por mais pequeno e insignificante que seja quem pretende vencer.

Nos clássicos contos de fada (dos Irmãos Grimm) há uma lei impecável: “a recompensa do bem e o castigo do mal”, lei que forma a base na alma infantil e fortalece a importante faculdade de discernir entre o bem e o mal.

Por estas razões, dizem que não devemos evitar  nenhum dos contos de fadas tradicionais. Gradualmente, sugerem que os pais contem os contos colecionados pelos Irmãos Grimm e Bechstein, sem adaptar, abreviar ou trocar nada por “algo” que nos pareça melhor. Dizem que devemos começar com os contos simples e logo mais tarde (+- aos 5 anos), continuar com alguns mais complicados, cheios de interessantes e emocionantes acontecimentos. Dizem ainda que “nunca” devemos explicar à criança o sentido dos contos de fadas e que a compreensão da mensagem final por parte do narrador é importante para o espírito pré-consciente da criança.

Até aqui, logicamente convencida da importância dos contos de fadas, apresentei histórias da minha infância para a minha filha, com nostalgia e emoção. Apresentei a maioria dos contos para a minha filha, comprei versões adaptadas para bebês e crianças pequenas e tal…

… no entanto, alguns contos me deixam muito intrigada e, seguindo aqueles instintos maternais que nos movem mas que nem sempre podem ser traduzidos em palavras evito, sim, alguns contos e não gostaria de apresentá-los à Bruna, mesmo mais adiante.

Acredito que o adulto precisa ser sensível ao selecionar as histórias mais adequadas ao estado de desenvolvimento da criança e para as dificuldades psicológicas específicas que a confrontam naquele momento… e acredito SIM que algumas histórias precisam ser evitadas porque, na minha opinião, não trazem nenhuma lição positiva e, do contrário, podem sim perturbar a cabecinha ainda ingênua da minha criança.

Não se trata do Lobo Mau, por exemplo. Eu entendo que em algumas histórias ele precisa “ser mau”. Não se trata de evitar que o Patinho Feio  ou o Dumbo sejam vítimas de bullying (risos)… Eu leio essas histórias em suas versões originais, gosto delas e acredito na importância e no ensinamento delas. Não se trata, de forma alguma, de querer que absolutamente toda história infantil seja politicamente correta.

Citarei cinco histórias clássicas que passaram a ser evitadas (ou adaptadas por mim), para exemplificar este post:  

JOÃO E MARIA 

Eu não entendo como pode ser positivo contar a uma criança a história de uma madrasta má que convence o pai a abandonar os filhos na floresta porque não gosta deles. Não entendo como o medo e a insegurança de uma criança, fatalmente provocados por essa história, podem ser educativos.

Não gosto de falar da bruxa que “come criancinhas”, nem da casa toda feita de doces. Detesto essa história do começo ao fim. Também não gosto de histórias que provocam “medo de madrastas” porque não acho isso educativo. Acredito que hoje em dia, quando crianças convivem cada vez mais com madrastas (suas ou dos amiguinhos), provocar medo sobre essas pessoas e apresentá-las como vilãs não seja inteligente.

O PEQUENO POLEGAR

Eu não entendo como pode ser positivo contar a uma criança a história de uma família que abandona o filho na floresta porque não tem dinheiro para comprar comida. Não entendo como a insegurança de uma criança sobre a possibilidade de perder o amor dos pais, certamente provocada por essa história, pode ser positiva.

O GATO DE BOTAS 

Um gato que mente a história inteira para convencer o rei que seu dono é rico e conseguir que este ofereça a mão de sua filha em casamento ao dono só porque o noivo em questão é supostamente rico.

Eu já detestaria essa história porque o objetivo dela é fazer alguém casar no final (acho essa preocupação tão desnecessária para o universo das crianças) e não entendo como pode ser positivo contar a uma criança a história de alguém “espertalhão” que mente o tempo todo para convencer os outros que seu dono é rico. Não gosto de ensinar que alguém que mente conseguiu o que quis e se deu bem, nem que “ser rico” é uma qualidade que precisa ser tão valorizada.

É claro que eu sei que esse conto infantil de Perrault envolve uma crítica social à nobreza e questões de moralidade, por ter sido escrito em 1967, num momento de França Absolutista. No entanto, eu realmente acho mais fácil evitar a história do que explicar esse contexto todo a uma criança tão pequena.

A PEQUENA SEREIA

Vocês sabiam que na clássica história A Pequena Sereia, do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875),  a protagonista morre ao final, cometendo suicídio ao se jogar no mar e virando espuma?! Sim! Su-i-cí-di-o! E por motivo torpe (risos), já que ela o faz simplesmente porque o seu amado príncipe resolve se casar com outra mulher.

Sinceramente? Eu não consigo concordar com quem diz que uma história dessas deve ser contada para as crianças simplesmente porque é um clássico do famoso Andersen… ou que um espetáculo que se baseie no roteiro original deste conto mereça classificação indicativa livre.

Falam tão mal da Disney, que supostamente “açucara” os contos tradicionais, mas e esse conto?! O que seria dele sem a versão Disney?! Alguém tem mesmo coragem de contar para uma criança, ainda que mais velha um pouquinho, a história da garota que se mata porque o namorado arrumou outra?! Eu, definitivamente não!

BAMBI

Eu, sinceramente, engasgo quando tenho que dizer que a mãe do Bambi morre em certa parte da história. E quem quiser me achar boba, que ache… existem outras histórias com florestas, animais, aventuras e tudo que há de positivo na história do Bambi, sem essa passagem trágica e desnecessária no universo da maioria das crianças pequenas que eu conheço.

E vocês? Qual a opinião de vocês sobre ESSES contos citados? Lembraram de algum outro conto de fadas “bizarro” que eu esqueci de comentar?

Fontes: Como se Contam os Contos de Fadas.

15 Comentários

  1. Lilian

    19 de novembro de 2013 at 13:45

    Nossa! Concordo com você Iza! Esse tipo de história é totalmente desnecessário!
    Fiquei chocada com o final da pequena sereia! Que belo exemplo: mulheres se suicidando por causa de namorado?????? ai, ai…

  2. Joyce

    19 de novembro de 2013 at 15:05

    Gente… recomendo a leitura do livro “A psicanálise dos contos de fadas”… é interesse descobrir que a realidade da criança não é igual a nossa…. não podemos nos basear na história através da nossa interpretação, porque a criança ainda não tem o nosso repertório para associar tudo de forma tão complexa. Vale a pena ler… tira todas as duvidas sobre as situações conflituosas dos contos de fadas, como a criança recebe essa informação e o quanto importante pode ser em alguns momentos de sua vida!

  3. Erika

    19 de novembro de 2013 at 15:11

    Concordo!! Ainda faltou mencionar a Bela Adormecida no bosque. Tem um trecho que diz que a rainha (mãe do príncipe) come criancinhas…

  4. Mari Oliveira

    19 de novembro de 2013 at 15:15

    Quando eu era pequena, a história de Rapunzel que eu conhecia – porque li num livro na casa da minha avó – era a de uma princesa aprisionada na torre, que recebia visitas de um príncipe sem que a mãe soubesse, e engravidava dele. Quando a mãe descobria, cortava-lhe os cabelos e a prendia, mas deixava a trança pendurada na torre para atrair o príncipe… Um dia, ao subir na torre, o príncipe dá de cara com Rapunzel sem os cabelos, e é empurrado pela mãe dela. Ele cai da torre em cima de roseiras e tem os olhos furados pelos espinhos, ficando cego. Fica vagando cego pela floresta, até o dia em que ouve Rapunzel cantar e vai atrás da voz. Nessa altura, Rapunzel já tinha tido os filhos gêmeos deles, tinha sido expulsa da torre pela mãe, e morava numa casa na floresta. Ao reencontrar o príncipe cego, ela chora de emoção e suas lágrimas, ao caírem nos olhos do príncipe, lhe recuperam a visão. Apesar do final feliz, eu sempre detestei essa história. Muito angustiante. E fiquei feliz quando assisti ao filme “Enrolados”, sem esse drama todo. A Disney “açucara” os contos de fada? Sim, e ponto pra ela!

  5. michele

    19 de novembro de 2013 at 15:42

    Concordo plenamente!!desnecesário contos infantis com essas histórias complexas entee mentiraa ,suicidio,abandonos.estou selecionando histórias pra contar pro meu filho essas concerteza não estaram inclusas..bju

  6. Natasha Rezende

    19 de novembro de 2013 at 17:03

    Concordo TOTALMENTE com você! Cresci com os contos de fadas açucarados da Disney e isso foi positivo na minha vida. Certa vez minha mãe comprou uma coletânea de contos de fadas e veio essa versão da Pequena Sereia, minha mãe ficou chocada e guardou o livro. Eu o lí, já tinha uns dez anos, e fiquei triste com aquele final horrível, imagina isso pra uma criança menor? Tenho dois filhotes (Bernardo – 2 anos e 3 meses e Valentina – 6 meses) e vou mostrar a eles essas histórias, principalmente pra Valentina. Já tenho livros e filmes e quando ela começar a ver tv, vai ter acesso a isso sim, mas não vejo nenhum problema em versões adaptadas para a inocência deles. É desnecessário temas tão pesados e nada proveitosos pra crianças. AMO O BLOG!

  7. Michele DF

    20 de novembro de 2013 at 08:47

    Levei meu filho pra ver o Rei Leão no cinema, ele tinha 3 anos. Quando a pai morreu, meu filho entrou em desespero, chorava que dava dó. Tentei tapar o sol com a peneira + foi muito impactante. Outro filme complicado é Leo, o leão., que a mãe morre afogada … outra saia justa maior ainda.
    Vai me dizer que isso ensina algo…Perdi minha mãe e ele com 4 anos participou do velório e não viu o sepultamento, disse a ele que ela tinha ganhado o pozinho mágico pra ir pro céu. Ele ficou conformado, chorou a perda + nada traumatizante.
    Daniel não quis ir ao teatro “Sítio do Pica-pau Amarelo” no passeio da escola, porque não queria ver a cuca. Depois a escola passou um vídeo de folclore e ele amou. Só queria ser o saci e ficava fumando o cachimbo, fiquei preocupada, expliquei de várias maneiras que fumar faz mal à saúde, não é legal e que o saci não tem + o cachimbo. Não me deu nem bola, disse que o Saci tem o cachimbo sim, mostrei o livro com o saci sem o cachimbo e ele desenhou o cachimbo…deixei pra lá. As vezes é melhor não dar tanto crédito pra ver se passa.. passou. Agora com 5 anos, já assistiu alguns desenhos com luta que por mim não teria assistido. Mas não dá pra mantê-los vendo apenas Discovery Kids pro resto da vida, pq se não vai sofrer bulling na escola com certeza.

  8. Vanessa

    20 de novembro de 2013 at 09:00

    Concordo com vocês!! Tenho uma implicância com a história de “João e o pé de feijão”! Acho uma péssima ideia contar para uma criança em desenvolvimento que o menino pegou (?) a galinha dos ovos de ouro e a harpa do gigante. Sejamos francas, estamos explicando para nossos filhos que se a pessoa for malvada podemos roubar dela? Não conto esta história não!!! Adoro este blog!!! Bjs.

    1. Karina Muniz

      25 de novembro de 2013 at 15:17

      E ele ainda corta o pé de feijão e mata o gigante! Sério, como isso pode ser educativo?

      1. Vanessa

        26 de novembro de 2013 at 10:20

        Verdade! Tinha esquecido que ainda piora…

  9. Dulce

    20 de novembro de 2013 at 19:15

    Eu comprei o livro do gato de botas por causa do shrek, mas não me lembrava da história. Quando comecei a ler pro meu filho de 4 anos fiquei impressionada também! O gato mente, engana, mata um ogro pra que seu dono fique com o castelo e depois se dá bem. Eu achei horrível. E veja que o objetivo dele é dar o golpe fazendo com que seu dono case com a princesa. E no fim ainda fala que ele nunca teve que trabalhar, etc, como se isso fosse bom. Eu odiei o livro, ainda bem que comprei numa mega promoção da fnac. Já o pequeno polegar eu acho que comprei a versão açucarada porque no meu livro não tem esse abondono por parte dos pais não. No meu livro, o pequeno vai até a floresta porque seu pai adoece e ele vai cortar lenha pra ajudar a família. Meu filho adora. Bjs

  10. Valéria Barros

    20 de novembro de 2013 at 22:05

    Realmente a criança tem uma outra visão de mundo , mas é necessário que aos poucos ela saia do mundo da fantasia e conheça a realidade, já que há todo momento enfrentamos o bem e o mal. Conceitos corretos cabe a família ensinar e deixar claro que as estórias são utilizadas, mesmo que de forma exagerada, para representar o que acontece a todo momento em nossa sociedade. Tenho duas filhas que entendem perfeitamente essa analogia, sem dramas ou traumas.

  11. Annie Thomas

    26 de novembro de 2013 at 15:54

    Gente,
    Engracado e meu marido cantando as musicas de criancas do Brasil.. ( a gente se esforca para manter todas as tradicoes e musicas em portugues ) Porem e uma tarefa dificil para meu marido.. hahah
    Ele sempre diz,… papai foi para roca e mamae foi passear ??? ( e o bebe fica sozinho aqui ??) boi boi da careta preta pega esta menina que tem medo de careta ?? ( ele sempre diz o meu pai, onde a gente acha um pouco mais de magia e mundo encantado em portugues pls… ahah Enfim voltando aos contos de fadas.. Meu marido estudou desenvolvimento humano, e umas de suas teses finais foi extamente a respeito deste assunto.. De acordo com as pesquizas e estudos que ele tinha feito na epoca, ele disse que ainda que a crianca tem uma perspectiva diferente da nossa, algumas historias e chocante sim, e na verdade ele disse que as criancas ainda sentem com mais intensidade que o adulto. Aqui em casa evitamos muitas coisas ..Ainda bem que agora por aqui a midia tem investido em filmes e personagens mais legais .. Minha filha e fanatica pelo Dr Sophie aqui ( e uma medica que ajuda as criancinhas ) adora Dora ..( e ainda eu tenho gostado mais ainda o quanto eels estao incorporando a diversidade ( nao e mais a meninha magrinha e loirinha como personagem principal. e estorias de princesas apaixonadas pelo seu principe ( aiaia eu ainda tenho meu pe atraz com esta estorias ..ahaha minha filha de 3 anos ser exposta a estas historias de amor e etccc ) Aqui eels tem falado muito sobre o assunto, e tem de fato incorporado estorias e personagens divertidos ( a estoria de amor e tal, eels estao meio que tirando aos pouquinhos de cena ..

  12. Fabiana Barros

    25 de agosto de 2014 at 14:57

    Ontem estive na exposição do SESC Interlagos -” Grimm Agreste ” e tive contato com alguns contos escritos na forma original. A exposição é baseada numa edição de um livro dos Irmãos Grimm de 1812-1815 e tem a história da gravidez da Rapunzel, mas o que me deixou chocada foi a da Branca de Neve. Ela não tinha madrastra. A invejosa era a própria mãe que ainda se sentia culpada pela menina ter nascido tão bonita (pois a menina nasceu conforme seu desejo). Esse é o conto que minha filha de 04 anos mais ama e não sei se contarei esses e outros nas versões originais.

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